A sanha dos militares pelo poder político – As trapalhadas da proclamação da República

A família real, de fato, já vinha sofrendo desgastes políticos desde 1870, fato agravado pelo descontentamento da aristocracia rural pela Abolição da escravidão que, equivocadamente, foi atribuída à Princesa Izabel. É certo, também, que os ideais republicanos excitava o ânimo dos intelectuais e dos universitários, ideais esses que, em verdade, nunca foram seguidos no Brasil.


Segundo o historiador Paulo Rezzutti, tudo começou com atritos entre os militares e o governo, potencializados por uma bravata dita pelo então Presidente do Conselho de Ministros, Visconde de Ouro Preto, a respeito do Marechal Deodoro, liderança militar que mais se insurgia contra os políticos: “… este prende-se e fuzila-se”.
O Major do Exército Frederico Sólon, encarregado pelos republicanos, passou a espalhar boatos – fake news – de que o Marechal Deodoro seria preso e que alguns corpos do Exército sediados no Rio de Janeiro seriam transferidos para outras províncias. A boataria chegou aos quartéis e três batalhões rebelaram-se em solidariedade ao Marechal Deodoro. A rebelião, em princípio, objetivava somente a derrubada do Gabinete de Ministros, ou seja, do governo e não da monarquia.
Inicialmente, Ouro Preto reuniu os Ministros no Arsenal da Marinha para analisar a situação. Várias providências para conter a rebelião foram atribuídas ao Marechal Floriano Peixoto, que teoricamente estaria ao lado do governo. Este, no entanto, nada fez… O gabinete foi induzido a reunir-se no Quartel General do Exército, onde foram cercados pelas tropas rebeldes. Instado a promover uma reação em defesa do governo, o Marechal Floriano recusou-se a agir. Nessas circunstâncias, Ouro Preto teve que se considerar rendido. As portas do QG do Exército foram, então, abertas aos militares rebelados. A esse respeito, disse Ouro Preto: “Fomos miseravelmente traídos. Chamaram-nos para esta ratoeira afim de que não pudéssemos organizar lá fora a resistência. Antes me houvessem matado!”.
Assim, no dia 15 de novembro de 1989, o Marechal Deodoro, um monarquista e admirador de D. Pedro II, subiu as escadas do QG do Exército dando vivas ao Imperador e declarando a derrubada do governo e a prisão dos Ministros.
Cientificado da situação por Ouro Preto, liberado para com ele conversar, o Imperador Pedro II relutou em aceitá-la. Foi convencido, afinal, de que o golpe não tinha volta e numa atitude impensada, resolveu indicar o gaúcho Gaspar Silveira Martins para montar o novo gabinete. Um verdadeiro tiro no pé… Isso porque Silveira Martins era inimigo político e pessoal do Marechal Deodoro, a quem anteriormente tinha acusado de crimes, que restaram não comprovados. Além disso, ambos ainda disputaram o amor da Baronesa do Triunfo, Maria Adelaide de Andrade Neves Meireles, que acabou por preferir Silveira Martins.
Por isso, já no dia 16 de novembro, quando Deodoro soube da possível indicação do seu inimigo para primeiro-ministro, declarou proclamada a República. Seguiu-se o sítio ao Paço Imperial e a ordem do governo provisório para a família real deixar o País no prazo de 24 horas, motivada pelo medo de um contragolpe, que já começava a ser articulado. Posteriormente, quando a família real já se encontrava na Europa, receberam a notícia do banimento.
Vejam a origem e as motivações da nossa República: corporativismo, fake news e traições, assim como a sanha dos militares pelo mando político, elementos que persistem até os dias atuais. E o povo continua excluído da democracia…

Inegável que D. Pedro II foi um dos governantes mais culto, honrado, honesto e comprometido com os interesses do Brasil. Foi, em especial, sensível à causa dos mais pobres, inclusive os escravos. Lutou, a despeito de uma classe política desqualificada e dos poderosos da época, pela grandeza do País, pela educação do povo e pela igualdade social e econômica. Sua deposição por meio de um golpe militar – a proclamação da República - constituiu um ato injusto e covarde, marcado por corporativismo, traições e fake news, somente justificado pela ânsia dos militares pelo poder político. 

. B. Pontes (*)

(*) Geólogo, Advogado e Escritor

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