INTIMIDADE INDECENTE

Sem trocar de roupa, sem sair da sala, ora no sofá, ora em volta do mesmo, Marcos Caruso e Eliane Giardini nos fazem viajar por lugares inimagináveis.

Foto: Produção

Depois de conversar bastante com Paulo Betti, sobre Intimidade Indecente, fui ao Rio de Janeiro, só para conferir a peça de Leilah Assumpção, em cartaz no teatro dos 4.

Ultimamente temos falado muito, que ir ao teatro é um ato de resistência. Contudo, quando acontece de encontrarmos obras bem escritas e, sobretudo bem executadas como Intimidade Indecente, então nos acontece uma catarse. Foi de fato o que vivi ontem no teatro dos 4, na gávea.

O texto não usa de eufemismo nem de subterfúgios para comunicar, a narrativa é franca, direta. Os atores são gigantes, dinossauros da dramaturgia, como não poderia deixar de ser, em se tratando de dois atores experientes, como Caruso e Giardini. Caruso, na verdade, foi quem estreou a peça em 2001, no papel de Mariano, enquanto que Irene Ravache fazia o papel da Roberta.

Cenário simples, uma sala e um sofá, com uma história comum em discussão. Um casal de 60 anos, que se separa por incompatibilidade sexual – falta de desejo, sem contudo perder o sentimento que ambos nutrem um pelo outro e, que por isso, mesmo separados continuam a se relacionar.

O Mariano, (Marcos Caruso) é quem “dirige” toda a comédia, que de repente se torna um drama incrível, indescritivelmente impactante, pois é o Caruso quem dá o tom nas mudanças do tempo. Basta um gesto senil, um andar envergado, uma fala grave e cansada, genialmente interpretados para que a plateia leia facilmente em que época o casal se encontra na corrente do tempo, que abrange uns 30 anos.  

Há outros personagens que não aparecem fisicamente em cena, contudo passam a habitar o palco, como por exemplo, o cão, a Rejane, Alice, Leia, os gêmeos etc.. A história é tão bem contada que temos certeza de que todos estavam em cena.

O riso é farto, delirante, diria que é possível criar calo no estômago, em apenas duas horas de espetáculo. Porém, há momentos em que nos esquecemos que estamos numa comédia romântica, especialmente durante os monólogos, onde ambos os atores nos sequestram para outro mundo, para o mundo da reflexão cortante e verossímil de onde voltamos mais humanos, quando sem perceber caímos outra vez dentro do mundo encantado do riso e da fantasia, como pretende que aconteça o magnífico e tão oportuno espetáculo teatral.

A peça discute alguns temas sociais importantes que estão em voga, como o machismo, o feminismo e a homofobia, mas tudo de modo franco, sem meias palavras. Todavia, o que mais nos arrebata é a sensibilidade do texto dos atores, em fugir do clichê, do lugar-comum, para agradar a quem quer que seja. Há espaço e liberdade para concordarmos ou não, com o que, pelo menos, à primeira vista nos parece ser a ideia central do autor.

Não há nada de indecente, o que há é o desnudar sublime de uma relação a dois, onde só quatro paredes podem reter, em um mundo repleto de orgulho, preconceito e hipocrisia.

Para quem já viveu experiências como a do casal, para quem já é pai e avô, enxergará facilmente a verdade dura e crua, contida na velhice – o esquecimento, a decadência física e a fragilidade das relações. A falta de afeto de filhos e netos, são coisas que nos fazem refletir, apesar de tanto riso e entretenimento que a obra nos oferece. Pessoalmente fiquei com a impressão de ter vivido uma catarse. Guardei pérolas valiosas contidas no subterrâneo dessa incomparável obra de ficção.

Por Evan do Carmo-Brasília-13/05/22

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