MARIA GUILHERMINA, UMA ESCULTORA ESSENCIALISTA.

A primeira vez que vi um trabalho de Maria Guilhermina, foi em um hospital de Inhumas, no final da década de 70, eu era um adolescente, quando lá estive para uma consulta médica, e pendurado, na sala de recepção, tinha um poema-cartaz de Getúlio Vaz intitulada “Conselhos”, no qual algumas estrofes ficaram na minha memória, e dizia mais ou menos assim: “seja corajoso, mas não deixe que a coragem o faça prepotente…seja prudente, mas não deixe que a prudência o torne um covarde…”, o poema continua, mas o que quero dizer, é que esse poema- cartaz fora escrito à mão e ilustrado por Maria Guilhermina.

O seu desenho impresso no cartaz, era também uma poesia visual, um trabalho bidimensional de linhas e cores tão leves, como são as suas esculturas de temas variados.

Para apreciar o trabalho dessa importante artista brasileira, nascida em Conquista – MG em 10 de fevereirode de 1932, e radicada em Goias, podemos abrir uma página no denso “cardápio” da história da arte universal, que, nas peças estilizadas da escultora, tem suas ramificações e conexões desde quando ainda éramos habitantes das cavernas, e esculpiamos “amuletos” como o da Vênus de willendorf, passando pela elegância da Arte Cicladica da era do bronze na Grécia antiga, desaguando na era moderna, onde o escultor Romêno Constantin Brâncuse (1876 – 1957), um “selvagem em disponibilidade” demiurgo de uma sensibilidade única, descortinou as formas escultóricas, levando-a de volta quase à uma abstração destas que encontramos na arte Cicladica; uma essência formal, como os esquemas que de forma inusitada, surpreendente para o período que foram praticadas nas esculturas e artesanatos daquela civilização sediada nas ilhas gregas por volta de 2.500 antes da era cristã…

Escultores britânicos também podem ser lidos nesse contexto. Dentro do nosso “cardápio”, que “linka” o passado na essência da escultura contemporânea da Guilhermina, podemos observar, traçar um paralelo de artistas que souberam aproveitar a estética reveladora minimalista do genial Brâncusi, que na pessoa de um Henry Moore (1898 – 1986), destilou a forma antropomorfica em esculturas sensuais de movimentos graciosos, marcando uma fase morfológica importante na arte moderna; e também sua conterrânea, a Bárbara Hepworth (1903 – 1986), que seguindo o relato estético/morfológico de Moore, nos apresenta uma escultura lírica levando à uma abstração total, mas, entre uma peça e outra da artista do Reino Unido, é possível resgatar o motivo antropomorfico ou zoomorficos nos seus temas escultóricos.

E aqui falando desses mestres, estamos falando também de Maria Guilhermina. Essa mulher que surge mineiramente no Planalto Central brasileiro, imprimindo uma obra repleta de símbolos de brasilidades, dando continuação em uma das melhores e mais bem sucedidas estéticas da escultura moderna e contemporânea no Brasil, em que a autora alterna as formas vazadas, entre o vazio e o cheio, o dentro e o fora, oxigênio para nossos olhos respirar, e encontrar a forma ideal entre a abstração e a figuração, como queiramos, afinal, abstração nos dias de hoje, pode ser lido como uma figuração de segundo tipo; as boas e velhas formas, em esculturas, denotando passaros, homens, mulheres animais, esculpidas (na sua maioria) em pedra esteatita, dão pleno vigor criativo nas pesadas obras tridimensionais da autora.

A consagrada artista vive há muitas década reclusa na sua bela chácara/ateliê na Avenida João Leite, no bairro Santa Genoveva, em Goiânia, foi professora de “Composição Decorativa ” e “Pintura” no então, Instituto de Belas Artes, e hoje Faculdade de Artes Visuais, UFG Goiânia.

Dona de um extenso currículo nacional e internacional, com inúmeras premiações à nível de Brasil e exterior, em 1959, participou da V Bienal de São Paulo, e em ocasião de sua exposição individual no MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo, em abril de 1975, o escritor e crítico de arte, Clarival do Prado Valadares escreveu: “Nessa época tão rareada de escutura em termo de escutura mesmo, no momento em que o efêmero pretende o duradouro, e o fácil se requisita para nos livrar do difícil, só pode ser romantismo essa atitude de querer fazer arte dialogando com a terra, levando a gema da terra para a vertente urânica, como se o fim fosse oferendar à natureza um pedaço dela mesma, tocada de criatura humana”.

Eu vejo que a jovem história da arte moderna e contemporânea em Goiás, que ainda não completou o seu primeiro ciclo dos 100 anos (distância de tempo razoável para realizar nosso primeiro senso artístico) tomando como ponto de partida a chegada do Frei Nazareno Confaloni em Goiás no ano 1950, e do 1° Congresso de Intelectuais de 1954 em Goiânia, pulsa em uma “terra fertilizada”.

Aqui cito Confaloni, porque ele ao chegar no nosso meio, ele introduziu uma outra dinâmica, um outro ritmo na arte local, e nessa “diapasão artística formal” dentre os grandes nomes componentes da cena artístico de nossa jovem história, Maria Guilhermina é verbete obrigatório como uma das maiores entre nós, viajantes cósmicos desse visceral e conturbado século vigente.

Nonatto Coelho.
Artista e pesquisador.
17/07/2022

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s